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As coisas não são mais como eram antigamente. Mas quem disse que elas deveriam ser?

Carência

Há uns quinze anos atrás, minha avó, que morava sozinha no Rio de Janeiro, ligava, de vez em quando, para nós, cá em Lages, só para dizer algo como: "Liguem a TV no SBT, vejam a entrevista com [pessoa aleatória]" Eu não entendia o porquê dela pagar uma ligação interurbana de tão longe, só para dizer algo tão banal. Demorou um pouco. Minha avó é falecida e hoje sou eu quem mora sozinho. Mas hoje eu a entendo.

Novilho

Eu quero morar em você Nesse lugar de amor E lá te adorar E lá te adorar Esse amor Que alimenta o novilho Todos os dias Todos os dias Até eu voltar Pois quando eu estou com você Já não mais o pecado me satisfaz Quando eu estou com você O que eu era antes já ficou pra trás Puseste um anel em meus dedos E agora os meus medos não me assombram mais Só quero voltar Só penso em voltar

Cansei

Eu cansei de esperar alguém Para abrir as cortinas da minha janela E me mandar levantar Alguém que me fizesse sair desse luto Eu cansei de esperar alguém Que me tirasse da cama E que estancasse meu choro E que me golpeasse a face Me fazendo olhar para fora Porque chega uma hora Que o luto tem que acabar E eu cansei de esperar alguém Pra me dizer que esse luto está muito demorado.

Quanto vale o show?

Quanto vale a vida, se vivida de aparência? Quanto vale o like, quando está acima da decência? Quanto vale Deus se reduzido a uma postagem? Quanto vale o tempo, se é pra digerir tanta bobagem? Quanto vale a vida, se reduzida a uma tela? Quanto vale a sua nova série, sua novela? Quanto vale o amei na sua nova foto de perfil? Quanto vale o seu textão sobre a política no Brasil? Quanto vale cada mensagem de feliz aniversário? Quanto vale cada curtida no seu comentário? Quanto vale o bitcoin num mundo em que se passa fome? Quanto vale o show de depressão no seu smartphone? Em tempo de aparência, o que é raro é a profundidade. Em tempo de maldade, o que é raro é a bondade Eu fico com o rei que escreveu Eclesiastes, Pois tudo que se vê em todo canto é vaidade.

Saudade

Era uma vez um menino chamado Matias. Certo dia ele acordou mais cedo que o normal. Ele estava com saudades. Olhou para o rádio relógio e este, despertando, começou a tocar alguma música que falava de saudade. Ele desligou o rádio mas ficou com a saudade. Levantou e foi ler o jornal. Saudade era a manchete principal da primeira página. Folheou para as outras páginas, mas todas elas falavam saudade. Os classificados, as notícias policiais, tudo. Nas palavras cruzadas, havia uma palavra com sete letras, que começava com "s". Saiu de casa, pegou o carro e viu que o reservatório de gasolina estava na reserva, e que portanto precisaria abastecer. Passou pelas ruas que sempre passou. O tempo parecia nublado, apesar do calor. "Saudade à 2km", dizia uma placa. "Que coisa estranha", disse Matias para ele mesmo. "Esse 'a' não deveria ter crase". Chegando no posto, o frentista chegou abruptamente à janela.  "Que saudade de você", disse o f...