segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Silêncio

Esse seu silêncio ensurdecedor
Refuta aquilo que se desejava ouvir
Sem concordar
Mas sem dizer o contrário

Soa muito alto, me dói os ouvidos
O som desse silêncio
Prefiro que me refute
Vamos lá, me diz que eu estou sendo chato
Que estou sendo igual um velho viado e putão
Diz qualquer coisa
Só não me diz que tanto faz.

Eu não sou igual tuas puta
Ninguém nunca vai te amar como eu
Só queria que fosse recíproco
Apesar de saber que você nunca vai poder retribuir por completo
Nunca vai conseguir

Às vezes parece que eu te bajulei demais
E que ajudei a criar o monstro no qual você se tornou
E agora parece que já está tarde demais

Eu detesto quando você faz isso
Parece que só eu corro atrás

Mas meu lado racional diz que nada disso é verdade
E que simplesmente você faz isso sem querer
E que a tua linguagem de amor é diferente
Mas ultimamente eu sempre levo pro coração
Na verdade eu preciso amadurecer
Parece que antes eu era mais maduro que hoje.

Filho,
Só queria que você largasse esse celular
E conversasse um pouco comigo.

Olha o seu velho pai
Eu já tive a tua idade
Eu gostava quando você olhava para mim
E seus olhos brilhavam de admiração
Eu era o teu heroi

Hoje você é bem dono de si
Ou pelo menos se acha
Nem me responde mais

Talvez eu esteja sendo vaidoso
Afinal, eu não deveria me julgar merecedor da tua admiração.

Tanto faz.

domingo, 4 de junho de 2017

Eduardo na praia à meia-noite

Eduardo estava na praia.
As pessoas entendem que a praia é um lugar de alegria.
Eduardo também pensava assim. Mas era noite.
Estava escuro por fora.
E, sem motivo aparente, começou a escurecer por dentro também.
Eduardo começou a sentir-se triste. Triste e sozinho.
Havia uma voz. A segunda voz, que falava com ele e dizia:
"Quantas amigos 'de todas as horas' você já teve... E onde eles estão agora?"
Então lhe veio a mente as pessoas com quem ele tinha um amor de aparente incomensurabilidade. Sempre lembrava delas com amor, mas a solidão lhe tomava conta, como notas graves repetidas randomicamente em um piano desafinado.

Eu falei que Eduardo estava rodeado de gente?
Eram pessoas queridas. Muito queridas. Mas Eduardo estava se sentindo sozinho.
Olhou para o mar e, diante de uma imensidão negra de água, percebeu que não era ninguém.
Então ele pensou que, enfim, estava sozinho e era bom se acostumar com isso.
Eduardo lembrou de Timóteo, que estava há alguns metros, com sua noiva.
Mas aquela voz ali falava que Timóteo também não estava nem aí para ele, e que ele só estava ali por causa dela.

Deixa eu falar uma coisa sobre Eduardo.
Eduardo participou de uma guerra que durou alguns anos. A guerra ainda não terminou, na verdade. E, durante alguns anos de sua vida, esteve na frente de um pequena porção de soldados, mas muitos morreram durante o combate. Um a um.
Muitos morreram.
Timóteo era um dos soldados. Mas, enfim... Tantos já haviam morrido. A morte de Timóteo poderia ser só mais uma dentre outras, que, no meio do campo de batalha, expiraram diante dos dardos certeiros do inimigo.
Eduardo às vezes lembrava de algumas dessas pessoas antes de dormir, e banhado era seu travesseiro em meio as lágrimas. Alguns morreram em seus braços, outros simplesmente sumiram no campo de batalha e nunca mais se ouviu falar deles.

Mas, naquela noite na praia, em meio a aproximadamente quarenta pessoas, Eduardo estava sozinho, pra sempre. Sua vontade era de abraçar Timóteo e pedir "Por favor, prometa que sempre vou poder contar contigo. Por favor, prometa que não vai morrer como os outros, nem vai desaparecer". Mas Eduardo sentiu vergonha de fazê-lo.

Eduardo foi dormir e pediu a Deus que explicasse a ele o porquê daquilo.

Eduardo recebeu um abraço de alguém que lhe falou algumas palavras que ele precisava ouvir. Que o fruto viria apesar de tudo isso. Toda a guerra valeria a pena.

Mais ou menos uns dois meses se passaram até que Eduardo enviou uma carta a Timóteo e contou aquilo que tinha sentido, em especial, com relação a ele. Timóteo disse que aquilo que Eduardo temi não iria acontecer, e ele que devia ter contado isso antes. Mas a ignorância humana te faz ter vergonha dos seus sentimentos. Ora, Eduardo era um oficial! Precisava ser incólume e durão!

Eduardo sabia que precisava batalhar e iria fazer isso da melhor maneira possível. Mas no fundo ele queria que essa guerra acabasse logo.

Mas depois de ter recebido a resposta de Timóteo, Eduardo sentiu um peso soltar-se de seus ombros.

Entretanto, o autor confessa que chorou um pouco lembrando escrevendo isso.

domingo, 23 de abril de 2017

Eduardo e a surpreendente alegria na aparente solidão

Eduardo saiu para dar uma volta.

Estava pensando em muitas coisas ultimamente. Pensava na moça do caixa 4, pensava nos seus relacionamentos com as pessoas e com Timóteo, seu melhor amigo.

Eduardo resolveu acordar mais cedo no domingo e caminhar sozinho. Fazia muito tempo que não caminhava, desde que comprou seu cavalo, que, por sinal, era prático demais. E, na verdade, fazia algum tempo que também não ficava sozinho. Apesar de ser inicialmente um tanto antissocial, já havia algum tempo que sempre estava rodeado de pessoas, e aquilo parecia importante de tal modo que esses relacionamentos pareciam estar tomando um espaço prioritário na sua vida.

Então, naquela manhã de domingo, Eduardo conversou muito, com Deus e consigo mesmo. Conseguiu colocar seus pensamentos no lugar.

Foi então que Eduardo percebeu que, quanto mais ele preenchia a si mesmo com seus relacionamentos das pessoas que amava, mais vazio se encontrava. E, paradoxalmente, no aparente vazio de estar a sós com Deus, percebeu que esse sim é o único relacionamento que realmente preenche a carência que estava sentindo.

Há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A tristeza de Timóteo

Nota do autor: escute a música e leia a história.
Outra nota do autor: escrevi isso há uns dias e só agora percebi que é muito triste. Se você não quer ficar triste, não leia nem escute. Se você joga Baleia Azul, aí feche isso e vá orar.





Era mais uma noite de sábado, como qualquer outra noite de sábado. Eduardo e Timóteo voltavam para casa e, como de costume, Eduardo estava deixando Timóteo em sua casa, após ter deixado outros amigos e antes de partir para sua própria casa. Ao parar o cavalo, um silêncio profundo tomou conta dos dois.

Primeiro ato

Timóteo olhou para Eduardo e logo Eduardo percebeu que os olhos avermelhados de Timóteo, embora secos, demonstravam um sentimento de profunda tristeza.

— Sabe — disse Timóteo — quando você por fora está alegre, mas por dentro está bem diferente?

Houve mais um pequeno instante de silêncio e durante esse tempo Eduardo pensou em dezenas de situações, tentando entender o porquê daquilo. Mas para quebrar o silêncio, resolveu falar o que lhe parecia mais sábio naquele momento:

— Eu sei exatamente como é isso.

Eduardo queria saber o porquê daquilo, mas ao mesmo tempo estava com um pouco de medo do que haveria de ouvir. Mas ele queria ajudar, afinal, Timóteo para ele era de uma afeição inestimável.

— Por que, mano? Você está chateado?

— Chateado, não. Triste, mesmo. — Disse Timóteo, com algum esforço para admitir isso.

— Sabe, eu recebi uma ligação. E fiquei sabendo que minha irmã e meu cunhado brigaram. Eu sabia que isso não ia dar certo. Ela ligou para mim e ligou para o pai, eu não sei o que vai acontecer. Ele tem um problema com bebida, sabe? E não é a primeira vez que isso acontece.

Para Eduardo, tudo pareceu mais claro e mais confuso ao mesmo tempo. Ele não sabia direito o que dizer. E não queria parecer surpreso pelo "problema com bebida", que ele não imaginava existir. Enfim, esse tipo de coisa não se sai espalhando por aí. Em meio a tantas coisas que poderia dizer, Eduardo preferiu só falar:

— Puxa, que ruim. Mas... Não fique triste.

Segundo ato

Timóteo prosseguiu falando.

— Eu lembro de uma vez, que fui dormir na casa deles. Eu era criança ainda e costumava dormir lá sempre, mais ou menos uma vez por semana. Mas naquela noite não foi nada bom. Eles brigaram e eu não sabia o que fazer no meio daquilo tudo. Só queria que aquilo não estivesse acontecendo. Eu não sabia como reagir, e na minha mente passava um turbilhão de pensamentos. Naquela noite, eu mal consegui dormir.

Timóteo pensou em como ele se sentiu mal, embora aquilo fizesse muitos anos, e embora ele não tivesse contado isso para ninguém desde então, parece que ele estava revivendo aquele momento. A insegurança lhe tomou conta outra vez, parecendo que ele estava incapaz diante dessa situação. Ele sabia que não tinha culpa de nada disso, mas mesmo sem querer, a tristeza lhe roubava a paz costumeira.

Terceiro ato

— Sabe, — prosseguiu Timóteo — Eu não sei o que vai acontecer. Meu pai ia viajar amanhã cedo, mas agora nem sei se ele vai. Mas qualquer coisa, eu te aviso amanhã de manhã

Eduardo não sabia direito o que dizer. Embora em meio a tanto desconforto, por um instante se sentiu confortável, porque afinal, seu fiel amigo se sentiu à vontade para se abrir para ele. E Eduardo queria ser o amigo das horas incertas. Mas, mesmo assim, não sabia direito o que dizer.

Eduardo lembrou-se que já passou por situações semelhantes e até mesmo bem piores, em sua família, mas achou que não era o momento de compartilhar isso, afinal, talvez só piorasse a situação.

— Puxa, mano, mas eu não quero te ver triste. Mas se você quiser ficar triste, a gente fica triste junto. Mas vai passar, Deus está no controle de tudo, mais tarde você vai perceber. Se eu fosse ficar triste como tudo o que eu já passei com meu irmão e minha cunhada...

— Sabe que você pode contar comigo, né? — Prosseguiu Eduardo — se precisar de qualquer coisa, é só me avisar.

Houve mais um momento de profundo silêncio. Podia-se ouvir os sons mais remotos a metros de distância, em meio a vozes ensurdecedoras em ambas as mentes.

Timóteo despediu de Eduardo.

Eduardo olhou nos olhos de Timóteo. Dessa vez Eduardo não disse que o amava. Por sinal, Eduardo nunca mais disse isso.

Um novo dia nasceu, oito de abril. No outro dia, ninguém falou sobre o assunto. Timóteo estava um pouco tépido pela manhã, mas estava melhor. A tristeza, aos poucos, foi embora.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Eduardo e Timóteo nas diatribes do amor ágape

Eduardo levou Timóteo de carona em seu cavalo até sua casa. Já era tarde, quarta vigília da noite.

Deixa eu falar um pouco sobre quem era Timóteo. Era o filho de uma judia que morava em um bairro na área alta da cidade. Era nove anos mais novo que Eduardo. Eduardo o conheceu quando ainda era criança, mas depois de algum tempo os dois se tornaram grandes amigos. Pelo menos é isso que Eduardo considerava.

Já estava tarde e os dois já estavam cansados. Especialmente Timóteo, que costumava dormir cedo e já estava um pouco abatido pelo sono.

Agapao
Esse foi o verbo que Eduardo usou para se despedir de Timóteo, dizendo que o amava. Vem do grego e significa um tipo incondicional de amor. Se fosse traduzir, significaria algo como "Você não imagina o tanto que eu te amo."

No entanto, em português isso soa estranho, tenho que admitir. Mas em grego antigo tem um significado puro e profundo. Eduardo estava se referindo a um tipo de amor que é capaz de renunciar sua própria alegria para ver o outro feliz. Como um pai que tira a jaqueta em um dia frio para agasalhar um filho.

Profundo foi o esmorecer da alma de Eduardo, quando Timóteo o redarguiu, dizendo que ele deveria encontrar uma mulher para amar. Essas palavras foram como uma espada que o feria em seu coração, em um golpe certeiro e inesperado. Disse mais Timóteo, sugerindo que Eduardo era uma pessoa sem atitude, e por isso não conseguia pretendente. Isso foi como se a espada tivesse aguçados dentes que o feriram de modo profundo em seus brios. Um golpe traiçoeiro que lhe tirou toda a sua autoconfiança.

Eduardo sentiu-se acabrunhado, lânguido, aborrecido, chateado, fatigado, apático, modorrento, derrotado, frustrado, neurastênico, passivo, cabisbaixo.

Timóteo tentou consertar, em tom de brincadeira, dizendo que o ensinaria a conseguir uma mulher se Eduardo o ensinasse cavalgar. Mas Eduardo estava ofendido. Sei lá o que aconteceu, afinal, Eduardo era alguém que não se ofendia facilmente. E nem era para tanto, afinal.

Ele não esperava isso. Ainda mais vindo de Timóteo, seu fiel amigo. Afinal, Eduardo dizia constantemente que não queria ver Timóteo triste. Mas naquele momento quem ficou triste foi Eduardo.

Talvez esse fosse o espinho na carne de Eduardo, tal como Paulo. Mas a história de Paulo era diferente, eu acho.

Agora, permita-me falar sobre o dia de Eduardo. Naquele dia, Eduardo só estava se sentindo carente. Mais cedo, durante a manhã, enquanto dormia, Eduardo teve um sonho em que fora rejeitado, enquanto seus melhores amigos regozijavam e pouco importavam-se com ele. Vale lembrar que Timóteo era um dos protagonistas no sonho.

Eros
Era o amor que havia entre seus amigos. Mas Eduardo, embora estivesse junto, se sentia repelido e aviltado. Seus amigos eram bonitos, e ele, feio. Seus amigos eram jovens e autoconfiantes, mas Eduardo era o mais velho, e mesmo assim, curvava sua cabeça. E todos eles se amavam, mas Eduardo estava excluído e ignorado. A sensação de rejeição era tão grande que o fez acordar antes mesmo do despertador tocar e, embora procurasse repelir tamanho embaraço e esmorecimento, esse sentimento permanecia alojado em seu coração durante todo o dia, como um espinho em sua carne.

Eduardo até tentou falar sobre isso, mas ninguém queria ouvir. No fundo, Eduardo não insistiu em compartilhar isso porque seria embaraçoso para ele.

Enfim, voltando a narrativa, depois de receber tal resposta, Eduardo voltou para casa tentando digerir tamanha apunhalada. Pensava: "Muito fácil para Timóteo falar isso. Já que ele nasceu mais bonito e predisposto a namorar uma menina que é apaixonada por ele desde sempre. Ele não precisava me lançar isso na cara." Estava sendo difícil. Eduardo escreveu em sua testa: "sem atitude", vestiu-se com panos de saco e foi dormir. O embaraço era tamanho que estava com medo de ter outro sonho ruim.

Naqueles dias, Eduardo passou por momentos difíceis. Era como se, vez por outra lembrasse de tudo isso e perdesse sua autoconfiança. Tornava-se tépido, sentindo-se desprezível.

Eduardo só queria que alguém dissesse que o amava, e que era importante.


Dois dias depois, Eduardo encontrou, na sela de seu cavalo, a escrita: εγω αγαπάω σου, que significa "Eu te amo" em grego antigo.

Aquela letra era de Timóteo.

Sei lá, acho que Eduardo precisava ouvir aquilo. E acho que amigo de verdade é aquele que é sincero mesmo que isso vá ofender o outro.
Acho também que no fundo, as pessoas estão tão acostumadas com a frieza que, quando percebem que são amadas, sentem-se ofendidas.

Sei lá, eu sou só o escritor, não estou aqui para opinar. Mas foi muito triste.

Eduardo está tentando entender qual o propósito de tudo isso.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Que 2017 traga

minha namoradinha.

Ainda arde um desejo


Ainda somos meras crianças mimadas criadas em apartamento pela vovó.
Estamos brincando de bolas de gude no carpet da sala de estar.
Mas na sala de estar ainda há uma grande janela.

Nessa janela nós olhamos e podemos contemplar
O quanto as almas clamam por justiça
Clamam por algo de Deus, algo que não conheceram ainda
Clamam por algo mais profundo.
Almas.

Atravessando a rua, no sinal, as almas passam.
Olhando com seus olhares fechados e severos.
Na verdade só estão cansados.
Almas.

A minha vontade é quebrar essa janela
Porque ainda arde um desejo
Ainda arde.
Aquele mesmo desejo pela profundidade
Que o Senhor colocou em mim.
Ele só estava um pouco coberto, mas ainda existe.
E agora ele arde, mais que tudo.

Descobri que a vida só vale a pena quando você está disposto a perdê-la.
Há uma causa maior.
A causa de Cristo.
É muito mais que religião.
As pessoas precisam de amor.
Mas a janela...

Eu preciso parar de me preocupar com as bolas de gude no carpet.
E olhar para as almas.