quinta-feira, 30 de agosto de 2018

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Carência

Há uns quinze anos atrás, minha avó, que morava sozinha no Rio de Janeiro, ligava, de vez em quando, para nós, cá em Lages, só para dizer algo como:

"Liguem a TV no SBT, vejam a entrevista com [pessoa aleatória]"

Eu não entendia o porquê dela pagar uma ligação interurbana de tão longe, só para dizer algo tão banal.

Demorou um pouco. Minha avó é falecida e hoje sou eu quem mora sozinho. Mas hoje eu a entendo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Novilho

Eu quero morar em você
Nesse lugar de amor
E lá te adorar
E lá te adorar

Esse amor
Que alimenta o novilho
Todos os dias
Todos os dias

Até eu voltar

Pois quando eu estou com você
Já não mais o pecado me satisfaz

Quando eu estou com você
O que eu era antes já ficou pra trás

Puseste um anel em meus dedos
E agora os meus medos não me assombram mais

Só quero voltar
Só penso em voltar

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Amá-las

Talvez as pessoas nunca entendam
O amor que você tem por elas
Ou talvez elas não queiram entender.

Mas será que isso é motivo
Para você deixar de amá-las?

Cansei

Eu cansei de esperar alguém
Para abrir as cortinas da minha janela
E me mandar levantar
Alguém que me fizesse sair desse luto

Eu cansei de esperar alguém
Que me tirasse da cama
E que estancasse meu choro
E que me golpeasse a face
Me fazendo olhar para fora

Porque chega uma hora
Que o luto tem que acabar
E eu cansei de esperar alguém
Pra me dizer que esse luto está muito demorado.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Quanto vale o show?

Quanto vale a vida, se vivida de aparência?
Quanto vale o like, quando está acima da decência?
Quanto vale Deus se reduzido a uma postagem?
Quanto vale o tempo, se é pra digerir tanta bobagem?

Quanto vale a vida, se reduzida a uma tela?
Quanto vale a sua nova série, sua novela?
Quanto vale o amei na sua nova foto de perfil?
Quanto vale o seu textão sobre a política no Brasil?

Quanto vale cada mensagem de feliz aniversário?
Quanto vale cada curtida no seu comentário?
Quanto vale o bitcoin num mundo em que se passa fome?
Quanto vale o show de depressão no seu smartphone?

Em tempo de aparência, o que é raro é a profundidade.
Em tempo de maldade, o que é raro é a bondade
Eu fico com o rei que escreveu Eclesiastes,
Pois tudo que se vê em todo canto é vaidade.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Saudade

Era uma vez um menino chamado Matias.
Certo dia ele acordou mais cedo que o normal. Ele estava com saudades.
Olhou para o rádio relógio e este, despertando, começou a tocar alguma música que falava de saudade.
Ele desligou o rádio mas ficou com a saudade.
Levantou e foi ler o jornal. Saudade era a manchete principal da primeira página. Folheou para as outras páginas, mas todas elas falavam saudade. Os classificados, as notícias policiais, tudo. Nas palavras cruzadas, havia uma palavra com sete letras, que começava com "s".

Saiu de casa, pegou o carro e viu que o reservatório de gasolina estava na reserva, e que portanto precisaria abastecer.

Passou pelas ruas que sempre passou. O tempo parecia nublado, apesar do calor. "Saudade à 2km", dizia uma placa.

"Que coisa estranha", disse Matias para ele mesmo. "Esse 'a' não deveria ter crase".

Chegando no posto, o frentista chegou abruptamente à janela. 

"Que saudade de você", disse o frentista. 

"O quê?", disse Matias. 

"Comum ou aditivada?", repetiu ele.

"Comum, completa. No cartão."

Matias desceu do carro e dirigiu-se à loja de conveniência para realizar o pagamento. "Deve ser uma piada do frentista...", pensou. "Afinal, o Mille é um carro econômico. É isso, um carro que gasta pouco, faz todo sentido..."

Enquanto o carro era abastecido, Matias olhou os salgadinhos. "Saudade queijo, Saudade bacon, Saudade churrasco..." Olhou na janela e viu, do outro lado da rua, a Loja da Saudade.

O frentista entregou-lhe a chave do carro, e disse à moça do caixa: "Saudade 4, comum".

"142,24", disse a moça a Matias.

"Débito", disse ele.

Digitou a senha.

"Saudade incorreta" foi o que apareceu na máquina do cartão.

"Sua saudade está errada", disse a moça do caixa.

"Sua saudade está errada". "Sua saudade está errada". "Sua saudade está errada"...

Matias acordou, abruptamente, ainda antes do despertador tocar. Era tudo um sonho. Matias estava suado. 

"Timóteo", sussurrou ele. "Timóteo precisa morrer".

O rádio relógio começou a tocar. 

"Vou morrer de saudade. Não, não vá embora..."