domingo, 23 de abril de 2017

Eduardo e a surpreendente alegria na aparente solidão

Eduardo saiu para dar uma volta.

Estava pensando em muitas coisas ultimamente. Pensava na moça do caixa 4, pensava nos seus relacionamentos com as pessoas e com Timóteo, seu melhor amigo.

Eduardo resolveu acordar mais cedo no domingo e caminhar sozinho. Fazia muito tempo que não caminhava, desde que comprou seu cavalo, que, por sinal, era prático demais. E, na verdade, fazia algum tempo que também não ficava sozinho. Apesar de ser inicialmente um tanto antissocial, já havia algum tempo que sempre estava rodeado de pessoas, e aquilo parecia importante de tal modo que esses relacionamentos pareciam estar tomando um espaço prioritário na sua vida.

Então, naquela manhã de domingo, Eduardo conversou muito, com Deus e consigo mesmo. Conseguiu colocar seus pensamentos no lugar.

Foi então que Eduardo percebeu que, quanto mais ele preenchia a si mesmo com seus relacionamentos das pessoas que amava, mais vazio se encontrava. E, paradoxalmente, no aparente vazio de estar a sós com Deus, percebeu que esse sim é o único relacionamento que realmente preenche a carência que estava sentindo.

Há tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A tristeza de Timóteo

Nota do autor: escute a música e leia a história.
Outra nota do autor: escrevi isso há uns dias e só agora percebi que é muito triste. Se você não quer ficar triste, não leia nem escute. Se você joga Baleia Azul, aí feche isso e vá orar.





Era mais uma noite de sábado, como qualquer outra noite de sábado. Eduardo e Timóteo voltavam para casa e, como de costume, Eduardo estava deixando Timóteo em sua casa, após ter deixado outros amigos e antes de partir para sua própria casa. Ao parar o cavalo, um silêncio profundo tomou conta dos dois.

Primeiro ato

Timóteo olhou para Eduardo e logo Eduardo percebeu que os olhos avermelhados de Timóteo, embora secos, demonstravam um sentimento de profunda tristeza.

— Sabe — disse Timóteo — quando você por fora está alegre, mas por dentro está bem diferente?

Houve mais um pequeno instante de silêncio e durante esse tempo Eduardo pensou em dezenas de situações, tentando entender o porquê daquilo. Mas para quebrar o silêncio, resolveu falar o que lhe parecia mais sábio naquele momento:

— Eu sei exatamente como é isso.

Eduardo queria saber o porquê daquilo, mas ao mesmo tempo estava com um pouco de medo do que haveria de ouvir. Mas ele queria ajudar, afinal, Timóteo para ele era de uma afeição inestimável.

— Por que, mano? Você está chateado?

— Chateado, não. Triste, mesmo. — Disse Timóteo, com algum esforço para admitir isso.

— Sabe, eu recebi uma ligação. E fiquei sabendo que minha irmã e meu cunhado brigaram. Eu sabia que isso não ia dar certo. Ela ligou para mim e ligou para o pai, eu não sei o que vai acontecer. Ele tem um problema com bebida, sabe? E não é a primeira vez que isso acontece.

Para Eduardo, tudo pareceu mais claro e mais confuso ao mesmo tempo. Ele não sabia direito o que dizer. E não queria parecer surpreso pelo "problema com bebida", que ele não imaginava existir. Enfim, esse tipo de coisa não se sai espalhando por aí. Em meio a tantas coisas que poderia dizer, Eduardo preferiu só falar:

— Puxa, que ruim. Mas... Não fique triste.

Segundo ato

Timóteo prosseguiu falando.

— Eu lembro de uma vez, que fui dormir na casa deles. Eu era criança ainda e costumava dormir lá sempre, mais ou menos uma vez por semana. Mas naquela noite não foi nada bom. Eles brigaram e eu não sabia o que fazer no meio daquilo tudo. Só queria que aquilo não estivesse acontecendo. Eu não sabia como reagir, e na minha mente passava um turbilhão de pensamentos. Naquela noite, eu mal consegui dormir.

Timóteo pensou em como ele se sentiu mal, embora aquilo fizesse muitos anos, e embora ele não tivesse contado isso para ninguém desde então, parece que ele estava revivendo aquele momento. A insegurança lhe tomou conta outra vez, parecendo que ele estava incapaz diante dessa situação. Ele sabia que não tinha culpa de nada disso, mas mesmo sem querer, a tristeza lhe roubava a paz costumeira.

Terceiro ato

— Sabe, — prosseguiu Timóteo — Eu não sei o que vai acontecer. Meu pai ia viajar amanhã cedo, mas agora nem sei se ele vai. Mas qualquer coisa, eu te aviso amanhã de manhã

Eduardo não sabia direito o que dizer. Embora em meio a tanto desconforto, por um instante se sentiu confortável, porque afinal, seu fiel amigo se sentiu à vontade para se abrir para ele. E Eduardo queria ser o amigo das horas incertas. Mas, mesmo assim, não sabia direito o que dizer.

Eduardo lembrou-se que já passou por situações semelhantes e até mesmo bem piores, em sua família, mas achou que não era o momento de compartilhar isso, afinal, talvez só piorasse a situação.

— Puxa, mano, mas eu não quero te ver triste. Mas se você quiser ficar triste, a gente fica triste junto. Mas vai passar, Deus está no controle de tudo, mais tarde você vai perceber. Se eu fosse ficar triste como tudo o que eu já passei com meu irmão e minha cunhada...

— Sabe que você pode contar comigo, né? — Prosseguiu Eduardo — se precisar de qualquer coisa, é só me avisar.

Houve mais um momento de profundo silêncio. Podia-se ouvir os sons mais remotos a metros de distância, em meio a vozes ensurdecedoras em ambas as mentes.

Timóteo despediu de Eduardo.

Eduardo olhou nos olhos de Timóteo. Dessa vez Eduardo não disse que o amava. Por sinal, Eduardo nunca mais disse isso.

Um novo dia nasceu, oito de abril. No outro dia, ninguém falou sobre o assunto. Timóteo estava um pouco tépido pela manhã, mas estava melhor. A tristeza, aos poucos, foi embora.