domingo, 4 de junho de 2017

Eduardo na praia à meia-noite

Eduardo estava na praia.
As pessoas entendem que a praia é um lugar de alegria.
Eduardo também pensava assim. Mas era noite.
Estava escuro por fora.
E, sem motivo aparente, começou a escurecer por dentro também.
Eduardo começou a sentir-se triste. Triste e sozinho.
Havia uma voz. A segunda voz, que falava com ele e dizia:
"Quantas amigos 'de todas as horas' você já teve... E onde eles estão agora?"
Então lhe veio a mente as pessoas com quem ele tinha um amor de aparente incomensurabilidade. Sempre lembrava delas com amor, mas a solidão lhe tomava conta, como notas graves repetidas randomicamente em um piano desafinado.

Eu falei que Eduardo estava rodeado de gente?
Eram pessoas queridas. Muito queridas. Mas Eduardo estava se sentindo sozinho.
Olhou para o mar e, diante de uma imensidão negra de água, percebeu que não era ninguém.
Então ele pensou que, enfim, estava sozinho e era bom se acostumar com isso.
Eduardo lembrou de Timóteo, que estava há alguns metros, com sua noiva.
Mas aquela voz ali falava que Timóteo também não estava nem aí para ele, e que ele só estava ali por causa dela.

Deixa eu falar uma coisa sobre Eduardo.
Eduardo participou de uma guerra que durou alguns anos. A guerra ainda não terminou, na verdade. E, durante alguns anos de sua vida, esteve na frente de um pequena porção de soldados, mas muitos morreram durante o combate. Um a um.
Muitos morreram.
Timóteo era um dos soldados. Mas, enfim... Tantos já haviam morrido. A morte de Timóteo poderia ser só mais uma dentre outras, que, no meio do campo de batalha, expiraram diante dos dardos certeiros do inimigo.
Eduardo às vezes lembrava de algumas dessas pessoas antes de dormir, e banhado era seu travesseiro em meio as lágrimas. Alguns morreram em seus braços, outros simplesmente sumiram no campo de batalha e nunca mais se ouviu falar deles.

Mas, naquela noite na praia, em meio a aproximadamente quarenta pessoas, Eduardo estava sozinho, pra sempre. Sua vontade era de abraçar Timóteo e pedir "Por favor, prometa que sempre vou poder contar contigo. Por favor, prometa que não vai morrer como os outros, nem vai desaparecer". Mas Eduardo sentiu vergonha de fazê-lo.

Eduardo foi dormir e pediu a Deus que explicasse a ele o porquê daquilo.

Eduardo recebeu um abraço de alguém que lhe falou algumas palavras que ele precisava ouvir. Que o fruto viria apesar de tudo isso. Toda a guerra valeria a pena.

Mais ou menos uns dois meses se passaram até que Eduardo enviou uma carta a Timóteo e contou aquilo que tinha sentido, em especial, com relação a ele. Timóteo disse que aquilo que Eduardo temi não iria acontecer, e ele que devia ter contado isso antes. Mas a ignorância humana te faz ter vergonha dos seus sentimentos. Ora, Eduardo era um oficial! Precisava ser incólume e durão!

Eduardo sabia que precisava batalhar e iria fazer isso da melhor maneira possível. Mas no fundo ele queria que essa guerra acabasse logo.

Mas depois de ter recebido a resposta de Timóteo, Eduardo sentiu um peso soltar-se de seus ombros.

Entretanto, o autor confessa que chorou um pouco lembrando escrevendo isso.

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