sexta-feira, 14 de abril de 2017

A tristeza de Timóteo

Nota do autor: escute a música e leia a história.
Outra nota do autor: escrevi isso há uns dias e só agora percebi que é muito triste. Se você não quer ficar triste, não leia nem escute. Se você joga Baleia Azul, aí feche isso e vá orar.





Era mais uma noite de sábado, como qualquer outra noite de sábado. Eduardo e Timóteo voltavam para casa e, como de costume, Eduardo estava deixando Timóteo em sua casa, após ter deixado outros amigos e antes de partir para sua própria casa. Ao parar o cavalo, um silêncio profundo tomou conta dos dois.

Primeiro ato

Timóteo olhou para Eduardo e logo Eduardo percebeu que os olhos avermelhados de Timóteo, embora secos, demonstravam um sentimento de profunda tristeza.

— Sabe — disse Timóteo — quando você por fora está alegre, mas por dentro está bem diferente?

Houve mais um pequeno instante de silêncio e durante esse tempo Eduardo pensou em dezenas de situações, tentando entender o porquê daquilo. Mas para quebrar o silêncio, resolveu falar o que lhe parecia mais sábio naquele momento:

— Eu sei exatamente como é isso.

Eduardo queria saber o porquê daquilo, mas ao mesmo tempo estava com um pouco de medo do que haveria de ouvir. Mas ele queria ajudar, afinal, Timóteo para ele era de uma afeição inestimável.

— Por que, mano? Você está chateado?

— Chateado, não. Triste, mesmo. — Disse Timóteo, com algum esforço para admitir isso.

— Sabe, eu recebi uma ligação. E fiquei sabendo que minha irmã e meu cunhado brigaram. Eu sabia que isso não ia dar certo. Ela ligou para mim e ligou para o pai, eu não sei o que vai acontecer. Ele tem um problema com bebida, sabe? E não é a primeira vez que isso acontece.

Para Eduardo, tudo pareceu mais claro e mais confuso ao mesmo tempo. Ele não sabia direito o que dizer. E não queria parecer surpreso pelo "problema com bebida", que ele não imaginava existir. Enfim, esse tipo de coisa não se sai espalhando por aí. Em meio a tantas coisas que poderia dizer, Eduardo preferiu só falar:

— Puxa, que ruim. Mas... Não fique triste.

Segundo ato

Timóteo prosseguiu falando.

— Eu lembro de uma vez, que fui dormir na casa deles. Eu era criança ainda e costumava dormir lá sempre, mais ou menos uma vez por semana. Mas naquela noite não foi nada bom. Eles brigaram e eu não sabia o que fazer no meio daquilo tudo. Só queria que aquilo não estivesse acontecendo. Eu não sabia como reagir, e na minha mente passava um turbilhão de pensamentos. Naquela noite, eu mal consegui dormir.

Timóteo pensou em como ele se sentiu mal, embora aquilo fizesse muitos anos, e embora ele não tivesse contado isso para ninguém desde então, parece que ele estava revivendo aquele momento. A insegurança lhe tomou conta outra vez, parecendo que ele estava incapaz diante dessa situação. Ele sabia que não tinha culpa de nada disso, mas mesmo sem querer, a tristeza lhe roubava a paz costumeira.

Terceiro ato

— Sabe, — prosseguiu Timóteo — Eu não sei o que vai acontecer. Meu pai ia viajar amanhã cedo, mas agora nem sei se ele vai. Mas qualquer coisa, eu te aviso amanhã de manhã

Eduardo não sabia direito o que dizer. Embora em meio a tanto desconforto, por um instante se sentiu confortável, porque afinal, seu fiel amigo se sentiu à vontade para se abrir para ele. E Eduardo queria ser o amigo das horas incertas. Mas, mesmo assim, não sabia direito o que dizer.

Eduardo lembrou-se que já passou por situações semelhantes e até mesmo bem piores, em sua família, mas achou que não era o momento de compartilhar isso, afinal, talvez só piorasse a situação.

— Puxa, mano, mas eu não quero te ver triste. Mas se você quiser ficar triste, a gente fica triste junto. Mas vai passar, Deus está no controle de tudo, mais tarde você vai perceber. Se eu fosse ficar triste como tudo o que eu já passei com meu irmão e minha cunhada...

— Sabe que você pode contar comigo, né? — Prosseguiu Eduardo — se precisar de qualquer coisa, é só me avisar.

Houve mais um momento de profundo silêncio. Podia-se ouvir os sons mais remotos a metros de distância, em meio a vozes ensurdecedoras em ambas as mentes.

Timóteo despediu de Eduardo.

Eduardo olhou nos olhos de Timóteo. Dessa vez Eduardo não disse que o amava. Por sinal, Eduardo nunca mais disse isso.

Um novo dia nasceu, oito de abril. No outro dia, ninguém falou sobre o assunto. Timóteo estava um pouco tépido pela manhã, mas estava melhor. A tristeza, aos poucos, foi embora.

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