segunda-feira, 13 de março de 2017

Eduardo e Timóteo nas diatribes do amor ágape

Eduardo levou Timóteo de carona em seu cavalo até sua casa. Já era tarde, quarta vigília da noite.

Deixa eu falar um pouco sobre quem era Timóteo. Era o filho de uma judia que morava em um bairro na área alta da cidade. Era nove anos mais novo que Eduardo. Eduardo o conheceu quando ainda era criança, mas depois de algum tempo os dois se tornaram grandes amigos. Pelo menos é isso que Eduardo considerava.

Já estava tarde e os dois já estavam cansados. Especialmente Timóteo, que costumava dormir cedo e já estava um pouco abatido pelo sono.

Agapao
Esse foi o verbo que Eduardo usou para se despedir de Timóteo, dizendo que o amava. Vem do grego e significa um tipo incondicional de amor. Se fosse traduzir, significaria algo como "Você não imagina o tanto que eu te amo."

No entanto, em português isso soa estranho, tenho que admitir. Mas em grego antigo tem um significado puro e profundo. Eduardo estava se referindo a um tipo de amor que é capaz de renunciar sua própria alegria para ver o outro feliz. Como um pai que tira a jaqueta em um dia frio para agasalhar um filho.

Profundo foi o esmorecer da alma de Eduardo, quando Timóteo o redarguiu, dizendo que ele deveria encontrar uma mulher para amar. Essas palavras foram como uma espada que o feria em seu coração, em um golpe certeiro e inesperado. Disse mais Timóteo, sugerindo que Eduardo era uma pessoa sem atitude, e por isso não conseguia pretendente. Isso foi como se a espada tivesse aguçados dentes que o feriram de modo profundo em seus brios. Um golpe traiçoeiro que lhe tirou toda a sua autoconfiança.

Eduardo sentiu-se acabrunhado, lânguido, aborrecido, chateado, fatigado, apático, modorrento, derrotado, frustrado, neurastênico, passivo, cabisbaixo.

Timóteo tentou consertar, em tom de brincadeira, dizendo que o ensinaria a conseguir uma mulher se Eduardo o ensinasse cavalgar. Mas Eduardo estava ofendido. Sei lá o que aconteceu, afinal, Eduardo era alguém que não se ofendia facilmente. E nem era para tanto, afinal.

Ele não esperava isso. Ainda mais vindo de Timóteo, seu fiel amigo. Afinal, Eduardo dizia constantemente que não queria ver Timóteo triste. Mas naquele momento quem ficou triste foi Eduardo.

Talvez esse fosse o espinho na carne de Eduardo, tal como Paulo. Mas a história de Paulo era diferente, eu acho.

Agora, permita-me falar sobre o dia de Eduardo. Naquele dia, Eduardo só estava se sentindo carente. Mais cedo, durante a manhã, enquanto dormia, Eduardo teve um sonho em que fora rejeitado, enquanto seus melhores amigos regozijavam e pouco importavam-se com ele. Vale lembrar que Timóteo era um dos protagonistas no sonho.

Eros
Era o amor que havia entre seus amigos. Mas Eduardo, embora estivesse junto, se sentia repelido e aviltado. Seus amigos eram bonitos, e ele, feio. Seus amigos eram jovens e autoconfiantes, mas Eduardo era o mais velho, e mesmo assim, curvava sua cabeça. E todos eles se amavam, mas Eduardo estava excluído e ignorado. A sensação de rejeição era tão grande que o fez acordar antes mesmo do despertador tocar e, embora procurasse repelir tamanho embaraço e esmorecimento, esse sentimento permanecia alojado em seu coração durante todo o dia, como um espinho em sua carne.

Eduardo até tentou falar sobre isso, mas ninguém queria ouvir. No fundo, Eduardo não insistiu em compartilhar isso porque seria embaraçoso para ele.

Enfim, voltando a narrativa, depois de receber tal resposta, Eduardo voltou para casa tentando digerir tamanha apunhalada. Pensava: "Muito fácil para Timóteo falar isso. Já que ele nasceu mais bonito e predisposto a namorar uma menina que é apaixonada por ele desde sempre. Ele não precisava me lançar isso na cara." Estava sendo difícil. Eduardo escreveu em sua testa: "sem atitude", vestiu-se com panos de saco e foi dormir. O embaraço era tamanho que estava com medo de ter outro sonho ruim.

Naqueles dias, Eduardo passou por momentos difíceis. Era como se, vez por outra lembrasse de tudo isso e perdesse sua autoconfiança. Tornava-se tépido, sentindo-se desprezível.

Eduardo só queria que alguém dissesse que o amava, e que era importante.


Dois dias depois, Eduardo encontrou, na sela de seu cavalo, a escrita: εγω αγαπάω σου, que significa "Eu te amo" em grego antigo.

Aquela letra era de Timóteo.

Sei lá, acho que Eduardo precisava ouvir aquilo. E acho que amigo de verdade é aquele que é sincero mesmo que isso vá ofender o outro.
Acho também que no fundo, as pessoas estão tão acostumadas com a frieza que, quando percebem que são amadas, sentem-se ofendidas.

Sei lá, eu sou só o escritor, não estou aqui para opinar. Mas foi muito triste.

Eduardo está tentando entender qual o propósito de tudo isso.

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